Tem dois assuntos que não discuto nem com cachorro. Religião e política. O primeiro é de foro íntimo e o segundo é maçante.
Cada um na sua e eu nada a ver com a de ninguém. Respeito antes de qualquer coisa.
Mas hoje este assunto dançou na minha cabeça e comecei a escrever.
Acredito em Deus, já vi milagres acontecendo e senti nisto a presença Dele.
Já senti o vento (que eu adoro) me beijar, um arrepio no braço, uma sensação de plenitude que me fez pensar em Maria, uma bela cena, uma imagem, um local que tive certeza da mão de Deus por ali.
Rezo, uma reza particular com Ele entre ave marias e pai nossos e seus santos, um papo que acontece entre nós, só nosso e pode ser o mais prosaico, caminhando na rua ou na companhia do meu travesseiro. O local é secundário, o momento quando acontece é vital.
Percebi algumas vezes o perigo me rondando e da mesma forma me rondava Jesus me protegendo, ali do meu lado, a um passo da minha mão, quase palpável.
Acredito em anjo da guarda, meu guia, minha voz interior, mas antes de mais nada alguém destinado para mim.
Sou global e não universalista que vem de uno, unidade e acredito que existam muitas outras forças além do território cristão, em outras culturas e crenças muito interessantes. Simpatizo com a maioria. E como cresci em bairro de judeus e convivi com eles e seus rituais desde pequena e até hoje muitos fazem parte do meu jardim especial, sempre acreditei que em alguma vida fui judia. Sinto isto tamanha a minha sintonia.
Mas me nego veementemente a imputar à minha pessoa esta culpa tão judaico cristão da nossa sociedade. Culpa de ser feliz, culpa de ter sucesso, culpa de tanta coisa que o mundo está sempre se desculpando de algo. Culpa virou sobrenome. Tento ao máximo não ter culpa. Culpa é para os fracos e oprimidos, e não acho que o reino dos céus seja só deles e não me incluo nesta categoria porque os fracos/culpados de alguma forma flertam com um certo poder.
E em certos momentos, sinto pena de Jesus de tanto que o alugam, muitas vezes em momentos banais, em pedidos fúteis e culpas desmerecidas que atribuem a ele.
Não pego isto pra mim, sou contra muitos temas arcaicos que a Igreja - política prega. Padres definitivamente não são a minha praia, apesar de admirar freiras e seus mistérios, suas quietudes e suas abnegações. Simpatizo com elas. Admiro as suas devoções e ruptura com um mundo tão convidativo, tão atraente.
Agora se for pra seguir conselhos de alguém, não será de um padre que vive a deriva das ações mundanas. Prefiro das pessoas que realmente vivem aquilo que falam. Nada substitui a experiência das ações. Como falar, por exemplo, de casamento, se nunca casaram?
Sinto necessidade de ir a missa em alguns dias, apesar de não ir com frequência e ter uma igreja na frente da minha rua como se estivesse abraçando, e porque não dizer, abençoando os moradores. Igreja bonita com escadaria e tal, famosa pela disputa entre as noivas para agendar seus casamentos.
Quando vou é uma necessidade mais forte que me puxa pra lá. Vem de dentro, não é obrigação. Não sou dada a obrigações em nenhum aspecto da minha vida pessoal. Obrigação e culpa caminham, às vezes,juntas tirando o prazer do ato em si. Laços pessoais obrigatórios não fazem a minha cabeça. Alguns tipos de laços não me atraem, me deixam aflita, seja num laço bem dado na sela de um cavalo antes de montar, seja na fita da sapatilha quando era jovem, ou com pessoas na minha vida.
Gosto do que vem sem amarras, sem nós. Curto mais e me comprometo mais ainda. Isto são laços de lealdade, comunhão e união. Flui de forma espontânea, sem imposição.
Voltando a igreja, quando subo aquelas escadas e assisto a missa é pela necessidade da energia de massa que emana de lá. Pela comunhão no canal direto com a força. Vida é força.
Força que sinto na energia dos que foram até lá por suas necessidades, pelas músicas que, ainda arraigada em mim, está a fala da minha avó materna que dizia que quando se canta na missa se reza em dobro. Então eu canto com fé, não com desespero. E me emociono.
Deus é um amigo, poderoso, mas não uma entidade distante de mim.
E aí entra a fé, onde somente a sonoridade da palavra já me encanta. Me lembro de uma camiseta da Fórum que eu tinha com esta palavra que realmente (re)move montanhas.
FÉ
Fé e religião são dois assuntos distintos. Fé não é mérito somente de religiosos.
Fé é conquista de quem caminha de mãos dadas com algo mais forte, inexplicável. Com a vida.
Fé é antes de mais nada acreditar que o mundo conspira. A teu favor.
É apostar no abstrato que nos surpreende no concreto da vida como resultado.
Por isto antes de qualquer dogma tenha fé!