terça-feira, 21 de abril de 2009

Nós, enquanto refém, enquanto algoz, enquanto alívio, enquanto culpa...

Na segunda feira, pós domingo de Páscoa, li no Jornal Zero Hora uma reportagem sobre uma mãe de classe média alta aqui de POA, que após muito lutar e sofrer com o declínio do seu único filho em função do crack deu fim a vida do rapaz de 24 anos com um tiro. Com este ato tirou de cima dela e do marido anos de humilhação, preocupação, surras e declínio e o filho tão amado, por vezes tão desejado e com tantas esperanças a nos trazer. Ou não.
Na reportagem vários depoimentos e a sequência das últimas horas desta família destroçada pela droga. Porque é fato, quando um filho é drogado ele leva pra lama não só ele, mas a família toda. Ele refém, família sequestrada ou vice versa.

A pergunta é: a que ponto chegamos para tirar a vida de alguém? Onde foi parar nosso coração, nossa cabeça, neste momento, para tomar esta decisão tão definitiva, sem volta, sem recuo? Seja ela no auge da insanidade ou desespero, da agonia ou do alívio. Instrumento de alívio imediato, de fim ao inferno vivido...

Veja bem não estou falando aqui sobre perversidade, crueldade ou psicopatia. Não estou justificando nem apoiando a decisão tomada de uma mãe no auge do desespero. Me parece.
Não acredito que a melhor saída seja a violência nem o assassinato. Não! Matar, pra mim é inconcebível, uma saída sem justificativa sempre.
Estou falando do que leva alguém a dar cabo do objeto de seu constante sofrimento, da sua humilhação diária. Do que alguém pode fazer para outro alguém que o faz alimentar dia a dia a sua sina , o seu pensamento, destruir sua alma e pensar na pior das saídas para sua vida seguir em frente ( por mais irônico que seja dizer isto). Anos de perversidade silenciosa nos causam humilhações muitas vezes camufladas do mundo, ódios disfarçados em camadas de aparências, raivas acumuladas injetadas nas nossas veias, tatuadas nas nossas almas que um dia irão inevitavelmente transbordar, seja com o abusador, com os outros ou com o abusado, no caso nós mesmos.
Meu olhar aqui é de mero espectador, somente isto, sem nenhuma tendência.
Me lembrei do meu amigo que há muito se perdeu no caminho e que há pouco mais de um ano, numa sinaleira esperando o sinal abrir, vi, na calada da noite sentado no chão sem sapato e sem rumo e com o olhar desconhecido. O mesmo amigo que em casa tem tudo e muito mais e não só grana ,mas amor dos pais cansados da sua melhora que jamais aparece, mas que permanecem lutando, cansados mas lutando. Amigo este que se perdeu num bad trip qualquer...

Fiquei pensando neste drama com uma ponta de tristeza e ao mesmo tempo questionando o quanto as pessoas que mais amamos e que nos amam são aquelas que mais nos fazem sofrer. O que leva uma mãe a tomar esta atitude tão radical? O que houve com este domingo que era pra ser de renascimento, alegria e confraternização? Aonde falhamos como pais, onde erramos com o desejo de acertar enquanto indivíduos na participação da construção ou interação de outros?

9 comentários:

Pâmela disse...

Sinceramente? Nem sei o que dizer.
Acho que deve ter sido uma situação muito desesperadora pra ela chegar a esse ponto. Não que isso justifique tirar a vida de alguém.
Sei lá, acho que é uma situação inconcebível pra mim.
Bejos!

Denise do Egito disse...

Essa mãe sucumbiu à dor, ao desespero. Tenho muita pena dela que, enquanto viver, carregará essa culpa na alma. Bem, meu perfil combina mais com os pais que lutam até o fim, mesmo que, como vc falou, a melhora não chegue nunca. Deus me livre passar por essa provação, deve ser muito, mas muito difícil.
Muito boa sua reflexão como mãe.
Beijos

Monica Loureiro disse...

Muito triste isso.
Que dor pra esta mãe ! Que culpa !

E pensar que tem gente "lucrando" com este tipo de coisa....

Camila disse...

Sinceramente? Nem sei o que dizer. [2]

É um história muito complicada e, apesar de também ser contra tirar a vida de alguém, não tenho uma opinião formada sobre o que aconteceu com essa família e que acontece por aí aos montes.

Só sei que ando sentindo falta de Deus ou de uma força maior presente nas pessoas que vejo pelos jardins floridos e becos floridos. A maldade não faz discriminação de classe ou racial.

Gostei da reflexão.
Beijos!

Dany disse...

Esse mundo tá cada vez mais louco mesmo. Hj em dia a morte virou coisa banal... por qquer motivo se mata. Tb acho o assassinato, algo inconcebível, principalmente da mãe com o filho. Que amor é esse que põe a humilhação que sofre diante dos familiares e vizinhos em primeiro lugar? Onde tá o amor incondicional, a perseverança, a luta pra tirar o filho desse mundo?! Pq não internar, sedar, amarrar, sei lá... mas matar?! Gente, o mundo anda mesmo perdido!Tô chocada!
Bjs

Babi Mello disse...

Que história triste Carol, honestamente, é compliado porque só vivendo na pele mesmo para saber o que fazer. Mas da aquela sensação de que os pais perderam ou mesmo entregaram a luta...
Dificil!

ale disse...

Esse caso me impressionou muito e me fez pensar muito também. Uma coisa é certa: a dor e culpa dessa pessoa não deve ter fim. E talvez o alívio também. Não desejo isso pra ninguém.

Valéria Martins disse...

Dificílimo julgar, porque não estávamos lá para ver. E se estivéssmos, seríamos capazes de enxergar? Claro que os pais não permitiram que esse destino acontecesse de propósito. Cada um faz o que pode e como pode. Ninguém pode dar o que não tem. Uma pena, mas acho que tirar a vida da pessoa-problema não é solução. É outro problema, mais um em uma sucessão de equívocos.
Mas quem sou eu para julgar?
Bjs

Bill Falcão disse...

Que mundo é este??
Bjooooooo!!!!!!